DESCARTES
E SPINOZA: O MÉTODO E O ENTENDIMENTO
di
Emanuel
Angelo Da Rocha Fragoso
ABSTRACT:
The present study aims
at making a distinction between the Cartesian and the Spinozistic conceptions
of Human Understanding, as a structural element directly related to Descartes’
choice for the analytical method, and Spinoza’s choice for the synthetic
method, in their respective philosophical systems. Descartes, traditionally
known as the philosopher of the method, and Spinoza with his Ethics demonstrated
in the geometrical method, immediately lead us to the study of their methods
as the main determiners of the structure of their most important texts,
namely, Descartes’ The Metaphysical Meditations, and Spinoza’s Ethics.
[Notes as links]
RESUMO:
Neste estudo procura-se
fazer a distinção entre as concepções cartesianas
e spinozistas acerca do Entendimento Humano, enquanto elemento estrutural
diretamente relacionado à opção de Descartes pelo
método analítico e de Spinoza pelo método sintético
em seus respectivos sistemas filosóficos. Descartes, tradicionalmente
conhecido como o filósofo do método, e Spinoza com sua Ética
demonstrada à maneira dos Geômetras, imediatamente conduzem-nos
ao estudo de seus métodos como os principais determinantes da estrutura
de seus textos mais importantes, As Meditações Metafísicas
de Descartes e a Ética de Spinoza.
[Notas como links]
DESCARTES E SPINOZA: O MÉTODO E O ENTENDIMENTO
A escolha do método
utilizado por Descartes e Spinoza em suas obras mais importantes, As Meditações
Metafísicas e a Ética, respectivamente, ultrapassa a mera
opção por esta ou aquela maneira de escrever. A relevância
do método não está implícita na simples afirmativa
de que o primeiro utiliza o método analítico e o segundo
o método sintético; tal afirmativa, por maior que seja nossa
compreensão do termo “método”, (termo tão propagado
em nossa contemporaneidade pragmática), ressente-se de maiores fundamentos
de ordem filosófica. As conseqüências aos sistemas cartesiano
e spinozista advindas destas opções, que de nenhum modo podem
ser consideradas fortuitas, mas sim como o produto de uma necessidade sistêmica
intrínseca, ficam ocultas sob a mera afirmativa, escamoteando considerações
de suma importância na compreensão global de seus sistemas
filosóficos.
O exame do método
sintético utilizado por Spinoza em sua obra maior, a ÉTICA,
que tem como subtítulo “Demonstrada à Maneira dos Geômetras”,
demonstra-nos que é o método utilizado que vai determinar
a disposição e a ordem de suas partes, pois a ÉTICA
foi escrita à “maneira dos livros dos Geômetras” (ordine geometrico
demonstrata), e como tal tem a “pretensão de nada sustentar que
não seja ou imediatamente evidente ou demonstrativamente estabelecido”
1.
Para lograr tal intento, Spinoza necessariamente deve partir de um princípio
que possua a “certeza da verdade”, que possa sustentar esta certeza por
si, sem o auxílio de nada além dele mesmo; ou seja, a “idéia
verdadeira” 2.
Este princípio
(ou melhor: princípios), são as definições.
Visando a caracterização do entendimento como fonte produtora
das idéias fundamentais da Geometria e da Metafísica ou como
potência de verdade, torna-se necessário examinarmos a natureza
das definições spinozistas para verificarmos se possuem a
mesma inteligibilidade das definições Geométricas
iniciais, que excluem necessariamente qualquer questionamento estranho
ao conteúdo precedentemente posto ou qualquer noção
que não seja diretamente exigível pelas afirmativas; isto
é, se as definições são imediatamente evidentes
ou necessitam de algo mais além delas mesmas para terem a “certeza
da verdade” 3.
Entretanto, cumpre ressaltar
a distinção entre os objetos temáticos da Geometria
e da Metafísica: quanto à primeira, seu objeto de estudo
são os seres de razão (as essências das coisas que
não tem existência exterior à nós); quanto à
segunda, seu objeto temático são os seres fisicamente reais
(as essências das coisas que tem existência exterior à
nós, seja na duração ou na eternidade). É desta
distinção dos objetos temáticos que advém a
importância da natureza das definições metafísicas,
pois elas versam sobre as essências de coisas exteriores à
nós constituindo um conjunto de noções fundamentais
no sistema spinozista. Ao contrário da Geometria, a admissão
da verdade destas noções deve necessariamente ultrapassar
à mera concebilidade interna ao entendimento 4.
As definições metafísicas devem “ser investidas de
uma evidência ao menos igual àquela dos pressupostos da Geometria”
5;
ou seja, elas devem poder sustentar apenas por si à “certeza da
verdade” preconizada por Spinoza em sua definição de método,
para que possam ser o fundamento de toda a ÉTICA. Ou no dizer de
Louis Meyer, no Prefácio do Os Princípios da Filosofia de
Descartes:
...de coisas previamente
conhecidas com certeza, é necessário coloca-las de início
aqui na base, como um fundamento sólido sobre o qual se possa erigir
mais tarde todo o edifício do conhecimento humano, sem risco deste
se abater por ele mesmo ou de desabar ao menor choque [grifo nosso] 6.
Pelas razões expostas,
evidencia-se a necessidade das definições da ÉTICA
serem consideradas como pertencentes ao primeiro gênero citado por
Spinoza na Carta IX como referindo-se às coisas exteriores ao pensamento,
definindo-as verdadeiramente. Todavia, devemos examinar se seria lícito
considera-las em tal sentido forte, ou em caso contrário (a despeito
de sua necessidade de certeza), as definições devem ser consideradas
num sentido mais fraco, incluindo-se no segundo gênero ao lado das
noções internas ao pensamento sem nenhuma correspondência
exterior. Ou ainda, apesar de remota, numa terceira hipótese: a
de que as definições sejam uma mera convenção
verbal, restringindo-se a assinalar o significado desta ou daquela palavra.
Nesta última hipótese,
as definições seriam apenas nominais, cuja função
dentro do sistema seria única e necessariamente a de nomear as coisas;
ou como escreve Gueroult, ao analisar esta hipótese: “elas se contentariam
em explicar os nomes pelos quais nos convém designar tal ou tal
coisa,...” 7. Neste caso, não
seria lícito considerar as definições como noções
fundamentais na ÉTICA, pois estaríamos tratando de convenções
verbais; e como tal, a única pretensão de evidência
que poderiam ter seria a consensual.
Assinale-se aqui que
não é a hipótese das definições serem
nominais o que lhes interdita a função de noções
fundamentais, mas sim a hipótese de que esta seja à sua única
função dentro da ÉTICA. Como vimos acima no exemplo
dado por Spinoza de uma má definição, nomear corretamente
as coisas é fundamental para a concebilidade das definições.
Com efeito, a importância da designação correta das
coisas é explicitamente sustentada por Spinoza na ÉTICA:
“a maioria dos erros consiste apenas em que não aplicamos corretamente
o nome às coisas” ((ÉTICA, Livro II, proposição
47, escólio).
Se considerarmos as definições
spinozistas no sentido mais fraco, como simples modos do pensamento sem
correspondência exterior a este, não poderíamos indagar
acerca da verdade ou não das definições, pois como
vimos acima, uma definição verdadeira em relação
aos seres fisicamente reais é aquela que está conforme com
à natureza da coisa definida. Ora, neste caso as definições
não seriam representações de objetos exteriores ao
entendimento, o que nos interditaria de considerar as definições
como conforme ou não à natureza de um objeto, visto não
haver nenhum representado. Neste caso, a única necessidade das definições
seria a da concebilidade interna. Se não podemos questionar a conformidade
aos objetos ou não das definições deste gênero,
elas não podem ser consideradas como definições de
seres fisicamente reais e muito menos como indubitavelmente certas pela
Metafísica; por conseqüência, as definições
deste gênero estão excluídas como noções
fundamentais da ÉTICA.
Por fim, resta-nos considerar
as definições spinozistas como pertencentes ao segundo gênero
citado ou no sentido forte: as definições são representações
de objetos exteriores ao pensamento que convém ou devem convir a
estes mesmos objetos, definindo-os verdadeiramente. A licitude como noções
fundamentais do sistema spinozista das definições assim consideradas
repousa sobre um paralelo entre a Geometria e a Metafísica, pois
Spinoza confere ao more geometrico a função de elevar o entendimento
finito à inteligibilidade do que é racional; ou como escreve
no Apêndice ao Livro I da ÉTICA:
...a verdade ficasse
para sempre oculta ao gênero humano, se a Matemática, que
não se ocupa de finalidades mas apenas da essência das figuras
e respectivas propriedades, não desse a conhecer aos homens uma
outra norma de verdade.
Segundo Gueroult, a legitimidade
das definições Metafísicas resulta da identificação
da Metafísica com a Geometria, de tal modo que a potência
de verdade pela qual devam ser concebidos os seres fisicamente reais não
possa ser outra que aquela pela qual são concebidos os seres de
razão. O que funda este paralelo é o fato de que a revelação
do entendimento como potência de verdade é dado ao homem pela
Geometria, porque é somente nesta que o homem
...apreende em ato a
produção espontânea de idéias pelo seu pensamento,
e vendo a verdade destas idéias se impor a ele do fato que, as produzindo
ele mesmo, ele as apreende interiormente em sua gênese 8;
ou seja, os seres de
razão da Geometria, ou seres geométricos, tem uma especificidade
que os outros seres de razão não tem: nós podemos
determinar-lhes uma causa adequada, enquanto que os outros seres de razão
implicam a ignorância das verdadeiras causas. De fato, a definição
específica de uma figura Geométrica pode ser substituída
por uma definição genética (que explica a gênese
da figura), ainda que a figura na natureza não seja engendrada como
foi descrita nesta definição. Entretanto, mesmo sendo fictícia,
esta causa pode ser utilizada como um “bom ponto de partida para conhecer
à nossa potência de compreender, como uma espécie de
trampolim para chegar à idéia de Deus”, com esta, “cessam
todas as ficções e abstrações, e as idéias
emanam dela na sua ordem justamente como as coisas singulares e reais se
produzem na sua” 9.
Se a Metafísica
é possível como ciência, ela deve poder utilizar esta
potência de verdade de modo que o entendimento possa produzir espontaneamente
as idéias dos seres reais, à semelhança da Geometria
que produz espontaneamente as idéias dos seres de razão 10.
De fato, ao expor as propriedades do entendimento, no que se refere à
produção das idéias, Spinoza considera que esta se
dá por duas vias: o entendimento forma certas idéias absolutamente
ou a partir de outras. O exemplo utilizado para as idéias que se
formam absolutamente é extraído da Geometria: “forma absolutamente
a idéia de quantidade” 11.
Portanto, apesar das
distinções temáticas, a fonte produtora das idéias
fundamentais da Geometria e da Metafísica é a mesma: o entendimento
finito enquanto parte do entendimento infinito; ou seja, o entendimento
como potência de verdade.
Neste sentido, podemos
afirmar que o projeto spinozista elaborado a partir da “idéia verdadeira”
e tendo por base as definições, determina a escolha do método
e condiciona tudo a este. A relevância do método para a estruturação
da ÉTICA, bem como do sistema spinozista como um todo, pode ser
exemplificada através de uma comparação entre a ordem
de suas partes e a definição de método que Spinoza
cita no Tratado Da Reforma Do Entendimento:
...o método nada
mais é do que o conhecimento reflexivo, ou a idéia da idéia
[verdadeira]; e o bom método é, então, aquele
que mostra como a alma deve ser dirigida segundo a norma da idéia
verdadeira dada [grifo nosso]
12.
O estudo do método
analítico utilizado por Descartes em sua obra maior As Meditações
Metafísicas, bem como das razões apresentadas por este filósofo
para sua opção por este, revela-nos que as divisões,
a ordem das partes nas Meditações será definida em
função da opção analítica cartesiana.
Além disso, a teoria do conhecimento de Descartes será toda
desenvolvida através do método analítico; ou seja,
o método irá definir a conhecida e citada ordem das razões
cartesianas. Assim como em Spinoza, é o projeto cartesiano que condiciona
a escolha do método e, a partir desta, o método irá
condicionar todo o projeto. Descartes assim fundamenta sua opção:
A análise mostra
o verdadeiro caminho pelo qual uma coisa foi metodicamente descoberta e
revela como os efeitos dependem das causas 13;
...a síntese, ao contrário..., não dá , como
a outra, inteira satisfação aos espíritos que queiram
aprender, porque não ensina o método pelo qual a coisa foi
descoberta 14.
No Racionalismo cartesiano,
a idéia de Deus é o suporte da teoria do conhecimento; Deus
é causa primeira. Todavia, mesmo sendo causa primeira, sua tematização
nas Meditações Metafísicas só será feita
na terceira Meditação 15.
O ponto de partida de Descartes é a dúvida enquanto ato de
um sujeito do qual inicialmente só se pode afirmar que é
o autor do próprio ato de duvidar, que é tematizada na primeira
Meditação 16. Segundo
Descartes, a dúvida tem a finalidade de “nos libertar de toda sorte
de prejuízos” e “preparar um caminho muito fácil para acostumar
nosso espírito a desligar-se dos sentidos,...” 17.
Na segunda Meditação 18,
Descartes vai desenvolver até a radicalização este
ponto inicial e extrair a primeira verdade: “Eu sou, eu existo”; ou seja,
o método cartesiano toma como ponto de partida o conhecimento de
um efeito, que vai sendo sistematicamente desenvolvido e ampliado até
atingir o conhecimento de sua causa. Pelo exposto, podemos notar que a
análise, ou a opção cartesiana pelo método
analítico, é o elemento ordenador das partes, ou das razões,
nas Meditações; isto é, Descartes, através
da análise, examina antes os efeitos para depois examinar as causas.
Em outras palavras: parte do conhecimento dos efeitos para chegar ao conhecimento
das causas.
Entretanto, esta opção
é absolutamente necessária e intrínseca ao sistema
cartesiano, pois, se por um lado, a teoria do conhecimento de Descartes
tem como suporte a idéia de Deus, por outro lado, esta fundamentação
baseia-se em uma certa suficiência teórica da idéia
clara e distinta. Tal suficiência fundamenta o método cartesiano
por duas razões implícitas: a primeira é que permite
que o conhecimento claro e distinto do efeito preceda o conhecimento claro
e distinto da causa; a segunda é a aceitação da possibilidade
prática de ir do conhecimento claro e distinto do efeito ao conhecimento
claro e distinto da causa. Por exemplo: eu sei que eu existo como ser pensante
antes de conhecer a causa pelo qual eu existo 19.
Ao contrário de
Descartes, Spinoza opta na ÉTICA pelo método sintético
(o conhecimento da causa antecedendo o conhecimento do efeito), em detrimento
do método analítico utilizado por Descartes nas Meditações
(o conhecimento do efeito antecedendo o conhecimento da causa). Esta opção
spinozista fundamenta-se na diferença de concepção
do entendimento destes dois filósofos. Com efeito, Descartes e Spinoza
sustentam a heterogeneidade do entendimento divino e humano porque em ambos
o entendimento divino é a origem do entendimento humano. Mas, enquanto
na Filosofia de Descartes Deus é a causa transcendente do entendimento
finito, no spinozismo Deus é a causa imanente 20.
O fato do cartesianismo
considerar Deus como causa transcendente do entendimento finito tem como
principal conseqüência a exclusão de toda e qualquer
comensurabilidade entre este entendimento e o entendimento infinito; esta
conseqüência por sua vez resultará na incomensurabilidade
da ciência humana com a ciência divina, já que a ciência,
tanto a humana quanto a divina, estão diretamente relacionadas com
seus respectivos entendimentos. Admitir esta incomensurabilidade será
admitir a falsidade da ciência humana em definitivo, pois se a ciência
de Deus é o conhecimento verdadeiro que não pode admitir
nada de falso e a ciência humana nada tendo de comensurável
com ela, não será possível à ciência
do homem ser verdadeira por si só. O spinozismo, ao contrário
do cartesianismo, ao considerar Deus como a causa imanente do entendimento
finito trará como conseqüência imediata a transformação
da relação entre o entendimento divino como causa e o entendimento
finito como efeito (presente na Filosofia de Descartes) em uma relação
em que o entendimento infinito será o todo e o entendimento finito
será uma parte deste todo, possibilitando a esta parte participar
do todo, porque entre a parte e o todo há sempre comum medida.
Tal transformação vai possibilitar que a ciência do
homem possa ser verdadeira porque o entendimento finito será comensurável
com o entendimento infinito. Vejamos isto por partes.
Para Descartes o entendimento
humano é totalmente distinto do entendimento de Deus, tanto no aspecto
quantitativo quanto no aspecto qualitativo. Quanto ao primeiro aspecto,
o entendimento de Deus por ser causa primeira é perfeito e ilimitado;
o entendimento humano por ser um efeito é imperfeito e limitado.
Quanto ao segundo, o entendimento divino por operar de forma totalmente
distinta do entendimento humano, elimina toda e qualquer distinção
no que tange à extensão, entre a vontade e o entendimento:
“Deus... entende e quer, não como nós, por operações
de algum modo distintas, mas sempre, por uma mesma e muito simples ação,
tudo simultaneamente entenda, queira e opere” 21.
No entendimento humano, devido à sua natureza imperfeita, ocorre
uma desproporção na extensão da vontade e do entendimento,
introduzindo o erro: a vontade, por ser “muito mais ampla e extensa que
o entendimento” 22, faz com que
o homem se engane sempre que formule juízo a respeito de coisas
que não são clara e distintamente representadas pelo entendimento.
Ao contrário, Deus por ser “soberanamente perfeito,
não pode ser causa de erro algum” 23.
Toda idéia clara e distinta tem um valor objetivamente certo porque
Deus é o autor de toda concepção clara e distinta
24.
Por conseqüência, a garantia de veracidade das idéias
claras e distintas do entendimento humano necessariamente transcende a
este; pois se o entendimento humano é passível de erro, imperfeito
e limitado ele não pode garantir apenas por si só a veracidade
de toda idéia clara e distinta.
Em Spinoza, a distinção
entre o entendimento humano e o entendimento infinito ocorre apenas no
aspecto quantitativo, não havendo distinções no aspecto
qualitativo como ocorre no cartesianismo. Esta semelhança qualitativa
entre os entendimentos é devida às diferentes considerações
acerca da natureza da causa: Deus é transcendente na Filosofia de
Descartes e imanente na Filosofia de Spinoza. Por ser a causa imanente,
no spinozismo o entendimento humano é uma parte do entendimento
divino, ainda que se mantenha a distinção quantitativa entre
os entendimentos: o entendimento divino (que tudo entende) tudo conhece
e o entendimento humano (que recai apenas sobre as coisas e os eventos
que lhe são dados) não pode e nunca poderá conhecer
tudo o que Deus conhece; ou seja, a distinção no aspecto
quantitativo é apenas na capacidade de possuir idéias adequadas,
que é limitada no homem e infinita em Deus. Se consideramos o entendimento
infinito “enquanto se explica [explicatur] pela natureza da alma humana”
(ÉTICA, Livro II, proposição 11, corolário
e Livro II, proposição 43, demonstração), o
entendimento humano (enquanto percebe as coisas verdadeiramente) é
uma parte do entendimento infinito de Deus, sendo idêntico a ele
e conhecendo as coisas como Deus as conhece 25.
Todavia, por ser parte
do entendimento divino não devemos supor que o entendimento humano
para Spinoza seja imune ao erro; assim como o entendimento humano em Descartes
é passível de erro, aqui ele também o é, embora
por razões diferentes. A diferença reside no mecanismo do
erro: em Spinoza, o erro consiste numa privação do conhecimento
(ÉTICA, Livro II, proposição 35, demonstração
e escólio; Livro II, proposição 17, escólio)
e não numa diferença de proporção quanto à
extensão da vontade.
Portanto, a distinção
entre a natureza da causa do entendimento em Descartes e Spinoza terá
como conseqüência a não aceitação por parte
de Spinoza da heterogeneidade total entre o entendimento divino e humano.
Esta rejeição irá por sua vez, ocasionar a recusa
spinozista em utilizar o método analítico preconizado por
Descartes. Tal recusa pode ser explicitada em dois aspectos: a não
aceitação do ponto de partida do método cartesiano
e a não aceitação da ordem de precedência do
conhecimento claro e distinto do efeito sobre o conhecimento claro e distinto
da causa admitida por descartes (apesar de Spinoza não negar a relação
entre o efeito e a causa).
O primeiro aspecto é
a recusa do ponto de partida cartesiano, porque para Spinoza, o
...conhecimento adequado
impõe como ponto de partida, não a livre posição
de meu entendimento separado [do entendimento infinito de Deus], mas uma
idéia dada, que, presente em mim como em Deus, é uma verdade
primeira... 26.
De acordo com a definição
de Spinoza citada anteriormente que especifica o fundamento do bom método,
não poderia ser outro o ponto de partida spinozista: o “conhecimento
reflexivo” ou a “idéia da idéia” deve necessariamente partir
da idéia verdadeira dada (a idéia de Deus); em caso contrário,
adverte-nos explicitamente acerca deste ponto o próprio Spinoza,
“...nada poderemos conhecer da Natureza” 27.
O segundo aspecto é
que para Spinoza a inferência de uma causa a partir do seu efeito
só se dá de forma inadequada (mutilada e confusa) 28;
ou, a verdadeira ciência procede da causa para os efeitos 29.
A separação entre o entendimento divino e o humano implica
na separação entre o entendimento e a verdade de forma irreversível.
Como escreve Gueroult:
Conceber que nosso entendimento
é outro que o entendimento divino..., que estas idéias são
garantidas de fora por Deus, é supor que Deus possa caucionar como
verdadeiras as idéias que serão necessariamente falsas, porque,
as idéias adequadas [claras e distintas] sendo as idéias
de Deus, tudo o que não é idéia de Deus é necessariamente
inadequado [mutilado e confuso], donde falso [grifo nosso] 30.
Por conseguinte, a primeira
parte da ÉTICA tematiza a causa absolutamente primeira: Deus (Primeira
Parte - De Deus)
31.
Pelo exposto, podemos
observar que a consideração cartesiana de Deus como causa
transcendente e a consideração spinozista de Deus como causa
imanente, é, em última análise, o que vai ocasionar
a diferença na concepção do entendimento divino e
humano na Filosofia de Descartes e de Spinoza. Por sua vez, é devido
a esta diferença quanto à causalidade, que o entendimento
divino e o humano serão heterogêneos de uma forma especifica
em cada um destes filósofos. Esta especificidade resultará
em Descartes na precedência do conhecimento do efeito sobre o conhecimento
da causa; em Spinoza, ocorrerá justamente o contrário: a
precedência do conhecimento da causa sobre o conhecimento do efeito.
A precedência de um ou de outro conhecimento é que vai determinar
os diferentes métodos utilizados por cada um destes filósofos
em suas obras. E estes métodos irão determinar as estruturas
da Meditações e da ÉTICA; ou seja, assim como foi
o método analítico escolhido por Descartes que determinou
a estrutura da Meditações, foi a opção de Spinoza
pela método de síntese que determinou a disposição
e a ordem das partes da ÉTICA.
NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. DELBOS,
Victor. Le Spinozisme. 5. ed. Paris: J. Vrin, 1987. 215 p. (Bibliotéque
D'Histoire de la Philosophie). p. 7.
2. SPINOZA,
Benoit de. Traité de la Reforme de L'Entendement. In: Œuvres. Tradução,
notícias e notas por Charles Appuhn. Paris, GF Flamarion,
1964. 4 v. v. 1, § 27, p. 191.
3. DELBOS,
Victor. Le Spinozisme. p. 7; e GUEROULT, Martial. Op. Cit., p. 36.
4. GUEROULT,
Martial. Spinoza. v. 1 (Dieu), p. 27.
5. GUEROULT,
Martial. Op. Cit., p. 36.
6. SPINOZA,
Benoit de. Les Principes de la Philosophie de Descartes. In: Œuvres.
v. 1, p. 230.
7. GUEROULT,
Martial. Spinoza. v. 1 (Dieu), p. 20.
8. GUEROULT,
Martial. Op. Cit., p. 28.
9. Neste
parágrafo, apoiamos nossa exposição no índice
de Deleuze para o termo Abstrações, em sua obra:
DELEUZE, Gilles. Espinosa
e os Signos. Porto: Rés, 1970. 205 p. (Colecção Substância).
Tradução de: Spinoza. p. 47 e 48.
10.
GUEROULT, Martial. Spinoza, v. 1 (Dieu), p. 28.
Neste parágrafo,
estamos nos baseando na interpretação de Gueroult para o
Entendimento como Potência de Verdade e a Identificação
das Definições da Geometria e da Metafísica.
11.
SPINOZA, Benoit de. Traité de la Reforme de L'Entendement. In: Œuvres.
v. 1, § 64, p. 217.
12.
SPINOZA, Benoit de. Op. cit., p. 192.
13.
DESCARTES, René. Réponses aux secondes objecions. In: Œuvres.
Organizada e traduzida por Charles Adam & Paul Tannery. Paris: J. Vrin,
1982. 13 v. v. IX-1, p. 121.
14.
DESCARTES, René. Op. cit., p. 122.
15.
Ibidem, ibidem, p. 27.
16.
Ibidem, ibidem, p. 13.
17.
Ibidem, ibidem, p. 9.
18.
Ibidem, ibidem, p. 18.
19.
DELEUZE, Gilles. Spinoza et le probléme de l'expression. Paris:
Minuit, 1985. 334 p. (Arguments). p. 140 e 141.
20.
Sobre a heterogeneidade do intelecto divino em Descartes, ver:
DESCARTES, René.
Principes. In: Œuvres. Organizada e traduzida por Charles Adam & Paul
Tannery. Paris: J. Vrin, 1982. 13 v. v. IX-2, § 51, p. 46 e 47.
Sobre a origem do entendimento finito em Spinoza, ver:
SPINOZA, Benoit de. Éthique.
Texto introdutório e tradução por Charles Appuhn.
Paris: J. Vrin, 1983. 2 v. em 1. (Bibliotéque des Textes Philosophiques).
Tradução de: Ethica. v. 1, Parte I (De Dieu), Proposição
XVII, Escólio, p. 63.
Sobre Deus como causa imanente em Spinoza, ver:
SPINOZA, Benoit de. Op.
cit., Parte I (De Dieu), Proposição XVIII, Demonstração,
p. 65.
21.
DESCARTES, René. Principes. In: Œuvres. v. IX-2, § 23, p. 35.
22.
DESCARTES, René. Meditations (Traduction Française). In:
Œuvres. v. IX-1, Meditação Quarta, p. 47.
23.
DESCARTES, René. Op. cit., p. 50
24.
Ibidem, p. 49. Ver também:
DESCARTES,
René. Principes. In: Œuvres. v. IX-2, § 22, p. 34 e 35.
25.
GUEROULT, Martial. Spinoza. Paris: Aubier-Montaigne, 1974. 2 v. (Analyse
et Raisons). v. 1 (Dieu), p. 32.
Aqui estamos citando
a interpretação de Gueroult para as Proposições
XI, Corolário e XLIII, Corolário, da ÉTICA II.
26.
GUEROULT, Martial. Op. cit., p. 34.
27.
SPINOZA, Benoit de. Traité de la Reforme de L'Entendement. In: Œuvres.
v. 1, nota 2, p. 212.
28.
Ibidem, § 13, p. 186.
29.
Ibidem, § 46, p. 210.
30.
GUEROULT, Martial. Spinoza. v. 1 (Dieu), p. 34.
31.
SPINOZA, Benoit de. Éthique. v. 1, Parte I (De Dieu), p. 19.